Poder, Estética e Persuasão
Arte Como Ferramenta de Propaganda
Templo de Abu Simbel, século XIII a.C., Assuã, Egito,
Introdução
Desde as origens da civilização, a arte tem servido como meio eficaz para modelar percepções, legitimar poderes e projetar ideologias. Muito antes de existir a palavra “propaganda”, imagens, os monumentos e as narrativas visuais eram fonte de ordenamento do mundo e de instaurar crenças coletivas. A história da arte pode ser lida, sob essa perspectiva, como uma sucessão de estratégias simbólicas por meio das quais o poder se representa — e, ao se representar, se justifica.
Ao longo dos séculos, o termo “propaganda” adquiriu conotações ambíguas. Ele carrega o peso de regimes autoritários, de manipulações e censuras, mas também revela a capacidade da arte de comunicar valores, de mobilizar afetos e de criar coesão social. O problema, portanto, não é a existência de uma arte engajada ou com finalidade política, mas o modo como a relação entre arte e poder é mediada, interpretada e disputada. A questão não é se a arte pode ser propaganda, mas o que significa reconhecer que toda arte, em algum grau, participa de um regime de persuasão.
O objetivo deste texto é investigar essa continuidade histórica e conceitual, da arte antiga à contemporânea, mostrando como o vínculo entre estética e poder não apenas sobreviveu à modernidade, mas se reinventou. A partir de uma leitura comparada de distintas tradições — históricas, filosóficas e artísticas — propõe-se compreender a propaganda como performance de poder, isto é, como o ato de construir realidades simbólicas que moldam comportamentos, crenças e identidades.
1. A gênese da arte como discurso de poder: entre deuses e imperadores.
Friso das Panateneias, 440 a.C., cerca de 444 a.C., Museu Britânico, Londres, Inglaterra.
As civilizações antigas foram mestres na arte de traduzir autoridade em imagem. No Egito, as esculturas colossais dos faraós não eram simples representações, mas encarnações visuais de uma ordem cósmica. O tamanho, a simetria e a serenidade das figuras transmitiam a ideia de estabilidade e eternidade. A arte era, ali, parte da teologia do Estado: ao representar o rei como divino, a imagem garantia a perpetuação do próprio poder.
Na Grécia, a escultura e a arquitetura expressavam a harmonia da pólis e o ideal de virtude cívica. Os relevos do Partenon exaltavam os cidadãos atenienses, transformando feitos políticos em mitologia. A estética da medida e da proporção, associada à pureza artística, também servia como instrumento de propaganda democrática — uma pedagogia visual sobre a grandeza de Atenas.
Roma aperfeiçoou essa gramática da dominação. Arcos de triunfo, colunas comemorativas e retratos imperiais compunham uma coreografia monumental de autoridade. A Coluna de Trajano, por exemplo, não apenas celebrava vitórias militares, mas narrava, em espiral ascendente, a inevitabilidade do domínio romano. A arte imperial transformou o império em espetáculo, tornando o poder visível e incontestável.
Coluna de Trajano, 113 d.C., Roma, Itália.
Em todas essas culturas, a função persuasiva da arte não era percebida como artificial ou manipuladora. O poder precisava ser belo para ser legítimo, e a beleza, por sua vez, era o rosto sensível da ordem. Assim, arte e propaganda não se opunham: ambas participavam da mesma linguagem simbólica que unia fé, política e estética.
2. Arte Como Teologia Visual: da Idade Média ao Renascimento
Na Idade Média, a arte assumiu um papel pedagógico e espiritual. As igrejas eram espaços de comunicação visual destinados a um público majoritariamente analfabeto. Afrescos, mosaicos e vitrais traduziam dogmas em imagens luminosas, moldando a imaginação cristã e reforçando a autoridade da Igreja. As catedrais góticas, com sua verticalidade e esplendor, dramatizavam o poder da fé e, simultaneamente, o poder dos príncipes que as financiavam.
L’annonciation, século XII. Basílica Catedral de Saint-Denis, Paris, França. O abade Suger está em primeiro lugar aos pés da Virgem.
O abade Suger, ao reformar a basílica de Saint-Denis, intuiu que a luz — material e metafísica — poderia ser um meio de persuasão. A beleza das formas tornava-se prova sensível da presença divina. Assim, o espaço sagrado funcionava como uma máquina simbólica que integrava religião, política e arte numa única experiência estética.
Giotto di Bondone, O Juízo Final, 1306, Cappella Scrovegni (Capela Arena), Pádua, Itália. A obra é um dos principais exemplos do início do Renascimento, destacando a transição entre a arte medieval e a renascentista, e retrata temas como redenção, inferno e diabo.
No Renascimento, essa relação se complexifica. O mecenato laico substitui parcialmente o religioso, mas o mecanismo de legitimação permanece. Cidades-estados como Florença e Veneza usaram a arte para afirmar prestígio e autonomia. Os retratos de príncipes e banqueiros, as encomendas de obras públicas e os programas iconográficos cívicos eram instrumentos de propaganda refinada. O humanismo, ao celebrar a centralidade do homem, ofereceu uma nova teologia — a do indivíduo e da razão —, mas manteve a arte como instrumento de autoridade simbólica.
Sandro Boticelli, A Adoração dos Magos, 1475, Galeria Uffizi, Florença, Itália. A obra inclui retratos de membros da influente família Médici e do próprio Botticelli, em um auto-retrato na extremidade direita
3. O Espelho dos Príncipes: Arte, Mecenato e Renascimento
Leonardo da Vinci, Retrato de Ginevra de’ Benci, 1474, Galeria Nacional de Arte, Washington, EUA.
Com o advento da imprensa e dos Estados modernos, a arte passa a dialogar com as massas. A imagem deixa de ser privilégio dos templos e palácios e se torna parte do cotidiano urbano. Cartazes, gravuras e monumentos nacionalistas constroem identidades coletivas, enquanto as academias de arte consolidam uma estética que serve ao poder centralizado. A Revolução Francesa, ao abolir os símbolos do Antigo Regime, compreendeu rapidamente que precisava substituí-los por novos ícones: a liberdade, a república, a nação.
Eugène Delacroix, A Liberdade Guiando o Povo, 1830, Museu do Louvre, Paris, França.
No século XIX, a arte se vê dividida entre a aspiração à autonomia e a função pública. Enquanto os românticos proclamam a independência do gênio criador, governos e instituições utilizam a arte para narrar o progresso e o destino civilizatório. O realismo social, o academicismo histórico e o nacionalismo pictórico coexistem como expressões de diferentes ideologias visuais.
Alfre Leete, Lord Kitchener Wants You, 1914; James Montgomery Flagg, I Want You, 1916; Guerra Civil Espanhola pôster Anarquista, 1936; Cartaz de recrutamento da Revolução Constitucionalista brasileira, 1932.
O século XX, porém, radicaliza o conceito de propaganda. A expansão dos meios de comunicação de massa — rádio, cinema, fotografia — transforma a arte em instrumento sistemático de mobilização. Regimes totalitários compreendem, talvez mais claramente do que os democráticos, o poder das imagens. A União Soviética cria um realismo socialista que idealiza o trabalhador; a Alemanha nazista exalta a pureza racial e a obediência; os Estados Unidos, durante as guerras, produzem narrativas heroicas de liberdade. A propaganda se torna uma estética do poder, sustentada pela crença de que o belo pode convencer e o feio pode destruir.
Leni Riefenstahl, O Triunfo da Vontade, 1935. Vencedor do Prêmio Alemão de Cinema (Deutscher Filmpreis), uma medalha de ouro na Bienal de Veneza de 1935 e o Grand Prix na Exposição Mundial de Paris em 1937.
4. A Estética da Nação: Modernidade e Propaganda Política
A partir da experiência traumática do século XX, consolida-se a desconfiança moderna em relação à arte política. A ideia de que a verdadeira arte deve ser autônoma — livre de finalidades ideológicas — tornou-se um dogma estético. No entanto, essa separação é ilusória. Toda forma artística, mesmo a mais “neutra”, participa de um sistema de valores, de uma linguagem e de um contexto histórico que a tornam politicamente significativa.
A distinção entre arte e propaganda, embora útil, raramente é nítida. A mesma obra pode provocar admiração estética e repulsa moral. Filmes como O Triunfo da Vontade exemplificam essa ambiguidade: tecnicamente brilhantes e eticamente abomináveis, revelam que a eficácia estética pode servir tanto à emancipação quanto à opressão. A beleza, longe de ser um antídoto contra a manipulação, pode ser o próprio veículo do poder.
Por outro lado, reduzir toda arte engajada a mera propaganda seria ignorar sua capacidade crítica. A arte política não é necessariamente doutrinária; pode ser também reveladora, questionadora, subversiva. O desafio está em reconhecer que o campo estético é, por natureza, um campo de tensões — entre forma e conteúdo, liberdade e função, contemplação e ação.
5. Dewey e Adorno: arte, política e autonomia
No debate filosófico moderno, duas posições ilustram essa tensão. Para o pragmatismo de John Dewey, a arte é uma forma de experiência vital, inseparável da vida social. Ela enriquece a percepção e amplia a liberdade humana, mas não existe fora da comunidade que a produz. A estética, nesse sentido, é um exercício democrático: a arte transforma a experiência comum em consciência coletiva.
Para Adorno, ao contrário, a arte só preserva seu potencial crítico se mantiver certa distância da sociedade. Ao se tornar instrumento direto de propaganda ou mercadoria, ela perde sua negatividade, ou seja, sua capacidade de resistir ao mundo administrado. A autonomia estética, para ele, não significa isolamento, mas a possibilidade de revelar as contradições do real sem se submeter a ele.
Essas duas visões delineiam o dilema da arte moderna. Dewey vê na participação um caminho para a emancipação; Adorno, na autonomia, uma forma de resistência. Entre ambas se desenha a complexa dialética que define a arte contemporânea: como agir politicamente sem se tornar propaganda, e como manter-se livre sem tornar-se irrelevante.
6. Arte e Diplomacia Cultural na Guerra Fria
Jackson Pollock, Number 1A , 1948, Museum of Modern Art (MoMA), Nova York, EUA.
A Guerra Fria reconfigurou o campo simbólico da arte. O expressionismo abstrato norte-americano, promovido como emblema da liberdade criativa, serviu de vitrine cultural contra o realismo socialista. O gesto individual e o acaso tornaram-se armas ideológicas. A estética da espontaneidade funcionava como metáfora política: o artista livre encarnava o sujeito democrático.
Isaak Brodsky, Retrato Oficial de Stalin, State Museum and Exhibition Centre ROSIZO, Moscou, Rússia.
Nesse contexto, a propaganda não era mais apenas estatal; tornara-se cultural, difusa, inserida na indústria da arte e na diplomacia simbólica. O museu e a galeria assumiram o papel de instrumentos de soft power. O mercado, ao canonizar certos estilos, transformou a arte em signo de civilização, reproduzindo a mesma lógica de dominação que outrora se atribuía à política.
A cultura de massa ampliou esse processo. O design gráfico, a publicidade e o cinema popularizaram técnicas de persuasão que antes pertenciam à propaganda estatal. A distinção entre arte e comunicação dissolveu-se. Em plena sociedade do espetáculo, o artista tornou-se, simultaneamente, criador e produto. A arte passou a operar dentro de um sistema de signos que já não visava apenas informar ou emocionar, mas modelar desejos.
7. Jonas Staal: a Arte como Performance de Poder
New World Summit, 2016. Conceito: O projeto busca expandir a noção de democracia, proporcionando uma plataforma e um espaço físico (um parlamento temporário) para grupos que são frequentemente rotulados como “terroristas” ou que não são reconhecidos como Estados-nação, como o Movimento de Libertação Nacional de Azawad, o Congresso Mundial Uigur, e representantes do Curdistão.
O objetivo é duplo: desafiar as limitações da democracia do Estado-nação e explorar o potencial da arte para imaginar e construir novas realidades políticas e futuros alternativos.
Cada cúpula funciona como uma assembleia pública de três dias, onde representantes dessas organizações discutem suas histórias, lutas, objetivos políticos e propostas para reformar ou derrubar sistemas políticos opressivos, seguidos por sessões de perguntas e respostas com o público.
O espaço do parlamento alternativo é muitas vezes uma instalação arquitetónica temporária. Notavelmente, em 2016, um parlamento público permanente foi construído em Rojava (Curdistão sírio), uma região autônoma, como parte do projeto, que serviu de local para uma cúpula subsequente.
Em essência, o New World Summit é uma iniciativa de “arte útil” (arte útil/engajada) que borra as linhas entre a prática artística e a ação política direta, criando um espaço para a representação de vozes marginalizadas no cenário político global.
No século XXI, o conceito de propaganda retorna sob novas formas. O artista holandês Jonas Staal propõe compreendê-la não como manipulação unilateral, mas como performance de poder. Propaganda, nesse sentido, é o ato de construir realidades — de encenar forças, ideologias e narrativas. Toda estrutura de poder, seja estatal ou insurgente, pratica algum tipo de propaganda, e a arte é um de seus campos privilegiados.
Staal propõe uma virada conceitual: se toda arte é, em alguma medida, propaganda, o desafio não é negar essa condição, mas decidir a serviço de que realidade ela opera. Sua prática articula arte e política como dimensões indissociáveis da criação social. Projetos como New World Summit e Ideological Guide to the Venice Biennial investigam como instituições culturais e estruturas estatais performam poder por meio da arte.
Para Staal, a propaganda contemporânea não é monopolizada por regimes autoritários; ela é plural e distribuída. Cada movimento social, corporação ou governo cria suas próprias narrativas visuais. A internet e as redes sociais democratizaram a produção simbólica, mas também multiplicaram as formas de manipulação.
Jonas Staal, Mapa Ideológico da Bienal de Veneza.
8. O Espetáculo e o Algoritmo: A Arte na Era da Comunicação Total
Vivemos um tempo em que a propaganda se infiltrou em todos os níveis da experiência. A estética do poder se manifesta nas imagens de consumo, nas campanhas políticas, nas plataformas digitais e até na curadoria cultural. A lógica da visibilidade substituiu a da contemplação: o valor de uma obra depende de sua capacidade de circular, de gerar engajamento, de se tornar narrativa.
Jenny Holzer, Protect Me From What I Want, 1983-85, Times Square, 1986.
Nesse contexto, o artista enfrenta uma contradição semelhante àquela diagnosticada por Staal: a arte é convocada a participar da disputa simbólica global, mas corre o risco de ser absorvida por ela. A busca por engajamento pode reduzir a complexidade estética a slogan, enquanto o refúgio na autonomia pode torná-la socialmente irrelevante.
A saída possível está em reconhecer a natureza performativa da arte — sua capacidade de criar mundos sem necessariamente impor doutrinas. A arte pode ser propaganda no sentido mais amplo: não de um regime, mas de uma imaginação coletiva. Quando atua como crítica e criação, ela revela que toda forma de poder é, em última instância, uma construção simbólica e, portanto, passível de reinvenção.
Conclusão: a arte como disputa pela realidade
A história da arte, observada sob a ótica da propaganda, não é a história da manipulação, mas a história da imaginação política. Desde os templos egípcios até as instalações contemporâneas, a arte tem sido o meio pelo qual o poder se representa e se contesta. A estética da persuasão não é apenas instrumento de dominação; é também veículo de resistência e de transformação.
Ai Weiwei, Dropping a Han Dynasty Urn, 1995.
Reavaliar a propaganda à luz da arte significa abandonar o preconceito que a associa exclusivamente ao engano. Significa reconhecer que as imagens têm agência — que moldam percepções, desejos e estruturas sociais. A arte, ao se apropriar conscientemente dessa dimensão, pode tornar-se um espaço de reflexão sobre o próprio poder das narrativas.
Kara E. Walker, A Subtlety or The Marvelous Sugar Baby, 2014.
Na era da saturação visual e da manipulação algorítmica, compreender a arte como performance de poder é compreender a política como estética da existência. A fronteira entre arte e propaganda, longe de ser um muro, é um espelho: nele se refletem nossas crenças sobre verdade, beleza e liberdade. O desafio contemporâneo é, portanto, ético e estético — reinventar a propaganda como prática emancipadora e a arte como forma de pensar criticamente o mundo que ela mesma ajuda a construir.



















